O VERBO ENCARNADO NO PHALLUS
- Fernando Liguori
- 27 de mar.
- 26 min de leitura
Atualizado: 28 de mar.

Por Fernando Liguori – Fr. AHA-ON 777
@estrelaeserpente | @argentiumaster | @hermakoiergon
Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.
Aqui se inicia um livro destinado a Homens – aqueles que possuem a capacidade de restaurar a Palavra Perdida ao dominar, com sabedoria e maestria, o Tubo de Prometeu, ou seja, o poder do PHALLUS. Esta obra mergulha na profundidade da sexualidade, da fisiologia e, consequentemente, da ancestralidade e espiritualidade masculinas. Se és um Homem e aspiras transmutar teu pênis em um PHALLUS – a Lança Sagrada, extensão da força mágico-criadora do Um Deus Verdadeiro – então encontrarás neste volume uma fonte essencial. Aqui, está preservada e revelada a visão de mundo e o estilo de vida daquele que se ergue como um autêntico Cavaleiro do Santo Graal.
O Homem, com H maiúsculo, é aquele que encarna a essência de Parzival, o Cavaleiro digno da Lança Sagrada – aquele que, com força e coragem inabaláveis, sustenta seu peso e a maneja com destreza e impunidade. Ele não é apenas portador da Lança, mas senhor de sua própria Vontade, forjado no rigor do treinamento e da disciplina. Em contraste, encontra-se o cavaleiro caído, o homem com m minúsculo – fraco, destituído das virtudes necessárias para erguer e conduzir a Lança Sagrada. Ele sucumbe sob seu peso, desprovido do vigor e da maestria que fazem do Cavaleiro do Santo Graal senhor de seu destino.[1]
Manejar a Lança Sagrada exige uma disciplina implacável, onde cada gota de sangue deve ser derramada apenas e exclusivamente na Taça de Babalon: sempre para mim.[2] Esta não é uma prática mundana, mas uma devoção absoluta, uma consagração total à Grande Obra. Cada êxtase, cada impulso que pulsa nas profundezas do ser, cada fervor da Vontade-Botão[3] deve ser canalizado com precisão e propósito, transmutando o desejo em poder espiritual. Na fórmula mágica da A∴A∴, trata-se da sublimação da Quadratura () no Círculo (°), um equilíbrio entre o controle absoluto e a entrega total ao Sagrado. O que apresento nestas páginas é fruto de mais de duas décadas de imersão nos arcanos centrais da A∴A∴ e da O.T.O., integrando-os à vida secular e à prática iniciática com rigor e autenticidade. Faço isso sob minha própria autoridade, não como mero transmissor de doutrinas, mas como um adepto sênior da sexta geração[4] de Iniciados da A∴A∴, cuja trajetória na comunidade thelêmica brasileira remonta a 1998, sempre comprometido com a Verdadeira Vontade e a senda da Luz.
Antes mesmo de minha iniciação na O.T.O. em 2001, o Segredo do IX° já me havia sido revelado por meu Superior na A∴A∴, Frater S.S.,[5] então um dos líderes da Ordem dos Cavaleiros de Thelema, O.C.T., uma dissidência concorrente da O.T.O. na época. Relatei esse acontecimento em Gnose Tifoniana Vol. I, pois marcou um ponto de virada em minha jornada iniciática. Contudo, minha aproximação com a magia sexual não começou ali. Antes de adentrar os mistérios thelêmicos, já havia estudado profundamente as técnicas de magia sexual ocidental dentro do Movimento Gnóstico de Samael Aun Weor (1917-1977),[6] além de investigar a fundo o falismo em diversas tradições e culturas.[7] Foi essa base sólida, forjada em anos de pesquisa e experimentação, que levou Frater S.S. a reconhecer minha aptidão e julgar-me preparado para ser instruído nos arcanos do IX° Grau, confiando-me um conhecimento que transcende meras técnicas e se manifesta como um verdadeiro caminho de vida e poder.
Desde o momento em que me deparei com os escritos de Crowley, foi a magia sexual que incendiou minha alma, pois sempre fui um indivíduo intensamente ligado à força criativa da sexualidade. A perspectiva de canalizar essa potência primordial não apenas para a obtenção de siddhis[8] – os poderes ocultos da mente e do espírito – mas também para realizar prodígios no próprio reino da matéria me fascinou mais do que qualquer outro aspecto da Arte Real. Desde os 16 anos, buscava integrar a magia sexual em meus relacionamentos, experimentando técnicas e explorando os mistérios da energia erótica com minhas parceiras. Cada relação que construí ao longo da vida foi permeada por essa busca, onde minhas companheiras assumiam o papel sagrado da Mulher Escarlate, sendo não apenas parceiras, mas veículos da Vontade manifestada.
Esse caminho tornou-se ainda mais intenso e refinado quando aprofundei meus estudos e práticas no tantra e no yoga, descobrindo os segredos psico-fisiológicos que permitem a manipulação consciente da energia vital. Foi então que compreendi, de forma plena, o verdadeiro poder do PHALLUS, a Lança Sagrada, não apenas como um símbolo, mas como um instrumento vivo de magia e transformação. Essa jornada não se trata apenas do prazer sensorial, mas da elevação do desejo ao êxtase espiritual, onde a sexualidade deixa de ser meramente carnal e se torna uma ferramenta para a manifestação da Vontade e o retorno à Luz.
Fui admitido na A∴A∴ como Probacionista 0°=0 em 1996 e elevado a Neófito 1°=10 em 1999. A A∴A∴ oferece um caminho de disciplina e rigoroso treinamento para enfrentar e dominar a quadratura pessoal (), ou seja, as forças internas indisciplinadas, as bestas que devem ser governadas pelo açoite da vontade, como instrui Liber Jugorum,[9] no árduo trabalho de edificação da Pirâmide Mágica. Paralelamente, a O.T.O., nos graus preliminares do Homem da Terra, também conduz o iniciado por um curso de desenvolvimento e adestramento da Verdadeira Vontade, estabelecendo as bases para a superação dos vícios e paixões no pensamento, na palavra e na ação. Esse treinamento é essencial para aquele que aspira restaurar a Palavra Perdida e manipular com maestria o poder do PHALLUS em nome do Um Deus Verdadeiro – o que, de fato e efetivamente, constitui o Segredo do IX° O.T.O.
Esse Segredo, no entanto, está resguardado nos graus superiores porque sua essência é, paradoxalmente, tão simples e acessível que seria um erro confiá-lo a alguém que não tenha sido testado por anos de fidelidade, disciplina e compreensão iniciática.[10] No sistema de progressão da O.T.O., conforme acreditava Crowley, aquele que estivesse pronto encontraria naturalmente seu caminho para a descoberta do Segredo, ou de outra forma, o Segredo encontraria o adepto preparado para recebê-lo. Crowley sustentava que, após o VII° O.T.O., o iniciado já teria sido forjado na chama da devoção, lealdade e disciplina – não apenas à Ordem, mas, acima de tudo, ao Um Deus Verdadeiro. Somente então estaria apto a começar a absorver os arcanos da Arte Sagrada. No VII° Grau, são consagrados os Bispos da Igreja Gnóstica Católica, indivíduos que não apenas carregam o conhecimento da sagrada tradição da Gnōsis, mas também incorporam em si os princípios religiosos do Um Deus Verdadeiro, preparando-se para manifestar e sustentar a Luz em um mundo de sombras, tornando o ochēma-pneuma em um Ovo de Luz (augoeides).
Os mistérios sexuais são os arcanos mágicos par excellence do Novo Aeon, os segredos supremos que conduzem à verdadeira iniciação e ao despertar da força primordial adormecida. Julius Evola, em sua visão aristocrática da espiritualidade, enxergava nas práticas do tantra um caminho apropriado para aqueles que desejavam restaurar a hierarquia espiritual e a nobreza da alma, resgatando a virilidade perdida com o triunfo do cristianismo e o colapso do mundo tradicional no Ocidente. Para Evola, as técnicas de transgressão do tantra não eram meras experiências esotéricas, mas armas de poder, os instrumentos necessários para enfrentar a crise espiritual do mundo moderno, um tempo de caos e degeneração.
Ele sustentava que, no período mais extremo e violento da história, apenas um método igualmente extremo e violento poderia proporcionar a verdadeira regeneração espiritual. O tantra, assim como a própria magia, era a via mais poderosa para romper com as debilidades da modernidade e restaurar o homem à sua condição soberana, um caminho reservado aos que possuem a coragem de desafiar a decadência e empunhar a Lança da Deificação.[11]
Muitos aspirantes à magia sexual – ansiosos por penetrar os véus da Arte Real – apressam-se em divulgar o que imaginam ser o segredo maior: a união do sangue do Leão Vermelho com o glúten da Águia Branca, no intuito de confeccionar o Elixir da Vida. Alegam que Aleister Crowley teria revelado tudo o que havia de ser dito sobre esse mistério, e que, portanto, não há mais por que ocultar seus arcanos. Contudo, tal premissa, embora parcialmente verdadeira, ignora o cerne da transmissão iniciática: o que é transmitido de mestre a discípulo na linguagem muda da carne, através de rito, respiração, juramento e sangue, não pode ser transmitido por papel impresso.
É certo que o sangue do Leão Vermelho representa o sêmen do operador, e não qualquer fluido menstrual feminino, como muitos erram em imaginar. O Leão é o símbolo solar e ativo da potência viril, enquanto a Águia – tradicionalmente associada ao elemento Água e à alma alada – é o símbolo da parte receptiva, oculta e lunar da mesma natureza do operador. Antes que se possa trabalhar com uma mulher real, o magista deve integrar e realizar, em si mesmo, o Mistério do Leão e da Águia: reconciliação alquímica de seu corpo físico com seu corpo sutil (ochēma-pneuma), redimindo assim sua alma e tornando-a apta a alçar voo. Essa é a obra de Redenção, que precede toda operação de Alta Magia Sexual. O mago que não conhece a si mesmo – Gnōthi Seauton – jamais compreenderá a Águia, pois esta é sua própria alma exaltada, presa nos abismos da matéria.
A união do Leão e da Águia é o mesmo que a coagulação da dualidade em uma nova unidade operativa. Aqui reside o Mistério do Ovo de Luz (augoeides), expressão do verdadeiro Corpo Mágico do Iniciado. Como me ensinou Frater S.S.: A Palavra do Mago é feita carne no PHALLUS, e o Verbo se torna Vontade Criadora, quando o Sacerdote, como um Leão, sacrifica sua semente na Águia de Prata da Alma.[12] A virilidade não é uma questão anatômica, mas sim metafísica: é o eixo pelo qual se estrutura o templo do ser. Aquele que não domina sua potência, antes de compartilhá-la, não é senhor, mas servo da luxúria.
Crowley adverte, com precisão, que a manipulação errônea de substâncias sagradas – como o sêmen consagrado, o óleo sagrado – pode atrair entidades larvais e qliphóticas: Se algo acontecer ao sangue enquanto o utilizas, haverá uma bagunça terrível; e se o sangue não for cuidadosamente destruído após o uso, pode ser apreendido por algum elemental vampírico ou demônio. Creio que ninguém abaixo do grau de Magister Templi deveria usar sangue, a menos que seja também um iniciado do IX° da O.T.O.[13]
O sangue aqui referido não é o menstrual, mas sim o sêmen sublimado, o vīrya dos tantras, a seiva de vida, o manna que, conforme Clement de Saint-Marc[14] escreve em A Eucaristia, é o alimento dos deuses, a substância preciosa que o Senhor dava aos seus eleitos no deserto. A Cabala zohárica, por sua vez, ecoa esta doutrina no Idra Rabba ao tratar do orvalho do cérebro do Ancião de Dias, a secreção mística que rega a Árvore da Vida e nutre os justos.
O Liber AL vel Legis (III:25–26) codifica este arcano: Isto queimai: disto fazei bolos & comei para me. Isto tem também um outro uso; seja depositado diante de mim, e conservado impregnado com perfumes de vossa prece: encher-se-á de escaravelhos como se fosse e coisas rastejantes sagradas a mim. Estes matai, nomeando vossos inimigos; & eles cairão diante de vós. Estas hóstias são consagradas com sêmen e simbolizam a comunhão mágica com o Logos: alimento do Deus-Sol encarnado no Iniciado. Por isso o Liber AL vel Legis (III:27) completa: Também estes engendrarão ardor & poder de ardor em vós ao serem comidos.
Rejeitar esse mistério – ou profaná-lo com ignorância – é invocar as forças caóticas das Qliphoth. Como ensinamos no IX°, a união alquímica exige domínio total sobre o Fogo Secreto, cuja expressão física é o PHALLUS consagrado. Como afirma o próprio Crowley: O PHALLUS é o cetro da Lei; nele reside o poder do Logos, e por meio dele o Verbo se faz carne.[15]
Portanto, que o operador saiba: a união do Leão Vermelho e da Águia Branca não é um ato carnal, mas um sacramento cósmico; não é uma exaltação da carne, mas uma elevação do Espírito; não é libertinagem, mas a mais alta disciplina. O Elixir da Vida não é gerado por mera cópula, mas pela consagração do desejo, sublimado como fogo alquímico no altar da Vontade. Como diz Hadit: Eu sou a flama que queima em todo coração de homem, e no âmago de toda estrela. Eu sou Vida, e o doador de Vida, no entanto por isto conhecer-me é conhecer a morte.[16]
No IX° O.T.O., onde o Sacramento da Carne se torna o veículo visível do Verbo Criador, o PHALLUS deixa de ser um símbolo fisiológico e torna-se um hieróglifo de potência celeste. O Iniciado, ao compreender o PHALLUS como Lança Solar, penetra o mistério do Logos encarnado: não uma palavra abstrata, mas uma vibração que gera e organiza a realidade. Esta Lança é o Raio Direcionado da Verdadeira Vontade – não apenas o símbolo da potência masculina, mas a própria Palavra tornada carne, o Verbo do Deus Interno que se manifesta ritualmente no mundo da matéria. A função mágica do PHALLUS está, portanto, em sua capacidade de transmitir – por meio da unção do Espírito – a fórmula mágica Abrahadabra, condensando nela o Princípio Criador de Hadit.
No interior do Templo, o Sacerdote da Missa Gnóstica assume a Persona do Logos Solar. A Lança que ele empunha não é apenas o bastão da autoridade ritual: é o PHALLUS de Deus, a Palavra em forma tangível. Penetrando o Cálice, a Yoni de Babalon, ele dramatiza o hieros gamos do Universo, a união tântrica entre o Espírito e a Matéria, o Céu e a Terra. É nesse momento que a fórmula do IX° se concretiza: o PHALLUS, consagrado, verte o óleo sagrado – Chrismum – que é ao mesmo tempo semente e verbo, essência e veículo da Vontade Suprema. A flama que queima em todo coração de homem encontra expressão plena no instante da penetração ritual, onde a ejaculação torna-se epifania, e o fluido solar é o fogo que anima o Ovo de Luz.
Esse Ovo – ochēma-pneuma, corpo glorioso, augoeides – é o objetivo supremo do IX°: cristalizar uma nova identidade mágica, um corpo celeste deificado gerado não apenas pela disciplina ou meditação, mas pela transmutação da energia sexual sublimada em veículo divino. No tantra encontramos a mesma doutrina codificada na união do lingam de Śiva com a yoni de Śakti: o lingam ereto não é símbolo fálico vulgar, mas o Eixo do Cosmos, o Meru interno, enquanto a yoni é o portal da Manifestação, o ventre da própria Deusa. O sêmen não é apenas fluido: é a substância seminal do mundo, o bindu ardente que, devidamente sacrificado no altar da Deusa, gera o mundo geometria de luz da alma do operador – seu corpo de glória.
No hermetismo alquímico, essa mesma operação é descrita como a união do Enxofre Solar com o Sal Lunar, por meio do Mercúrio Transmutador. O sêmen sagrado é o Enxofre coagulado, e a yoni é o athanor – o forno onde a Obra é cozida, purificada e manifestada. A Clavis Alchimiae[17] guarda esse segredo sob símbolos vetustos: o Leão Vermelho – símbolo do Fogo da Vontade – deve ser unido à Águia Branca – o Espírito Sublimado – a fim de produzir o Elixir da Imortalidade. Essa união é a essência do IX°: a alquimia vivente entre o Corpo Solar do Sacerdote e o Cálice Místico da Sacerdotisa.
Crowley recodificou esse mistério com precisão matemática, ele afirma o PHALLUS é a Lança de Deus, e todo o poder mágico está em sua consagração. E voltando as instruções de Frater S.S., o Verbo do Mago é feito carne no Phallus, e o Verbo se torna Vontade Criadora, quando o Sacerdote, como um Leão, sacrifica sua semente na Águia de Prata da Alma. É neste sacrifício – que não é derrota, mas oferenda consciente – que o PHALLUS torna-se Logos: não símbolo, mas ação; não desejo, mas Vontade; não carne, mas Luz.
O Iniciado do IX° compreende, portanto, que seu PHALLUS não lhe pertence – pertence ao Sol. Ele não é dono de seu sêmen, mas seu sacerdote. E cada emissão controlada é uma missa, um ato criador no altar do Cosmos. Essa sacralidade do PHALLUS é o centro do culto solar que liga o IX° à tradição hermética, à alquimia, ao tantra e ao mistério de Osíris. A magia sexual, longe de hedonismo, é a mais severa das disciplinas: cada ereção é uma espada que deve ser ungida, consagrada e dirigida. Cada união é um rito onde a Deusa exige presença total, consciência ardente e intenção reta.
Assim, a união entre a Clavis Alchimiae e o arcano do IX° está na compreensão de que a verdadeira transmutação não é simbólica, mas operativa: o sêmen sacrificado é o fermento da Grande Obra; o PHALLUS é a vara de Aarão que floresce; e o Graal é o Ventre da Eternidade, onde a Palavra toma forma. Abrahadabra, nesse contexto, é o selo dessa união, o Verbo da Criança Mágica gerada pela fusão dos opostos. A Missa Gnóstica, portanto, é um mapa cosmológico: cada ato, cada gesto, cada penetração é um passo na Dança dos Arquétipos.
O segredo do IX° é esse: o poder do Sol reside no PHALLUS, mas somente quando ele é consagrado pela Vontade e sacrificado no Altar da Noite. O PHALLUS ereto é a Lança, mas o que a torna sagrada é a intenção da Alma. Quando essa intenção é pura, o sêmen se torna verbo; quando é dirigida, a carne se torna luz. A verdadeira magia sexual não está na carne, mas na Consciência que consagra a carne. E aquele que compreende isso, torna-se verdadeiramente Filho do Sol, e faz da Lança sua Palavra, da Palavra sua Vontade, e da Vontade seu Universo.
Ao penetrar no núcleo hermético do IX°, deparamo-nos com uma cifra que, à primeira vista, pode parecer apenas um ornamento cabalístico da fórmula Abrahadabra. Contudo, ao observarmos atentamente as três letras ocultas que sustentam essa palavra - Resh (ר), Beth (ב) e Daleth (ד) - revelam-se três nervos luminosos que sustentam a operação sexual mágica da Ordo Templi Orientis. São os três pilares do Opus Vivens: Fogo, Templo e Porta. E sua função não é meramente descritiva – é dinâmica, axial e vivificante.
Resh (ר) representa o Sol, o Fogo da Vontade, o Espírito do PHALLUS ereto e consagrado. Ele é a cabeça dourada da operação, o raio solar que emana da coroa da alma e se condensa na ereção do sacerdote. Em sua raiz hebraica, resh significa cabeça e também designa princípio e liderança. No Tarot de Thoth, é o Atu XIX, O Sol, simbolizando a glorificação da consciência e a manifestação da Criança Mágica. No rito do IX°, Resh é a centelha que desperta o fogo no osso, a vontade de geração, o primeiro ato mágico: a elevação do PHALLUS à posição vertical da adoração.
Beth (ב) é a Casa, o Templo. Na linguagem litúrgica da Missa Gnóstica, Beth é o corpo do magista transfigurado em templo vivo, receptáculo do Verbo, câmara onde se elabora o Sacramento. Na Cabalá, Beth é a primeira letra do Gênesis – Bereshit – e simboliza o princípio da criação formal, a manifestação da potência oculta em arquitetura. No Tarot de Thoth, Beth é o Mago (Atu I): aquele que, pela direção da Vontade, opera o Verbo na carne. No IX°, Beth é o útero alquímico do magista: o campo onde o sêmen consagrado será plasmado em Luz. É o centro interno da operação: a mente transfigurada pela Vontade.
Daleth (ד), por fim, é a Porta, a abertura sagrada da Deusa. No Tarot de Thoth, é a Imperatriz (Atu III): a Vênus mística, matriz do êxtase, regente do Graal. Daleth significa literalmente porta, mas também evoca o ventre cósmico da Mãe Eterna – Babalon – cujo Cálice recebe o óleo da Lança. No IX°, Daleth é a abertura entre mundos: é a mulher, o Graal, a vagina glorificada pela consciência da Sacerdotisa. Quando a Lança penetra essa Porta com pureza e direção, consuma-se o sacramento mágico: a fusão entre Céu e Terra, o nascimento da Criança.
Essas três letras não são apenas estágios sucessivos, mas aspectos interdependentes de uma única anatomia sagrada. Resh é o fogo que desperta; Beth é o vaso que contém; Daleth é a matriz que gera. A união entre esses três princípios consagra o Ovo de Luz, o augoeides, que é a substância viva da Criança Mágica – o Corpo Solar do Iniciado. Esse ovo não é metáfora psicológica: é uma entidade sutil, gerada ritualmente pelo casamento alquímico do PHALLUS e do Graal. Como ensina o Tantra Kaula, esse corpo só é formado quando a energia vital (prāṇa), a consciência desperta (cit) e o êxtase (ānanda) se fundem em uma única corrente de Ser.
É por isso que Abrahadabra – a palavra do Aeon – contém esse segredo oculto. Ela é o Verbo que sela o nascimento do Filho Estelar. Cada letra é um nervo secreto que conecta o PHALLUS ao Logos, e o Logos à Criação. Ao vibrá-la no momento do êxtase mágico, o magista invoca não apenas uma fórmula – mas uma Força. Ela é o Nome da Criança antes que ela nasça. Abrahadabra é a palavra que sela a abertura da Estrela e do Abismo.
Na prática do IX°, a consagração do sêmen não ocorre no vazio. É necessária a articulação litúrgica entre Resh, Beth e Daleth: o PHALLUS deve estar desperto, a mente purificada e o receptáculo glorificado. Somente assim o sêmen – o óleo solar – pode ser ungido como Verbo. E quando ele é lançado no Graal, ou consumido como Eucaristia, ele se converte em substância de luz. Esse é o verdadeiro pão dos sábios, o maná de Śambhala, a seiva branca de Śiva. Como diz o Kulārṇava-tantra: Quem consagra o sêmen no ventre da Deusa, com plena consciência, torna-se um Sol entre os homens.[18]
Esse Sol é o Iniciado do IX°, aquele cuja Lança é Luz e cujo PHALLUS é Palavra. Seu sêmen já não é dele – é do Aeon. Ele é transmissor do Fogo, sacerdote do Logos, veículo da Criação. E o Ovo de Luz que ele gera com sua Sacerdotisa é o templo eterno da Criança Estelar – não um filho biológico, mas o Filho do Sol.
Assim, Abrahadabra não é apenas o selo de uma operação mágica: é a fórmula fonética da união entre Resh, Beth e Daleth – PHALLUS, Templo e Graal. É a espiral que desce da coroa até a carne, e da carne sobe em luz. É o nome secreto da Lança que brilha como ouro no firmamento da Alma. E aquele que entende isso, compreende que a verdadeira magia do IX° não está no corpo – mas no Verbo que faz do corpo uma Estrela.
No cerne do IX° Grau, há uma fórmula de duas letras – ON – que encerra uma teurgia solar, uma palavra germinal de poder cuja simplicidade esconde a mais profunda articulação entre a carne e o Verbo. Em ON vibra o segredo alquímico da Clavis Alchimiae, o selo tântrico do bindu e a revelação de que o sêmen consagrado é o sacramento da Palavra Viva – o meio através do qual o PHALLUS torna-se Logos e o Logos se torna Luz.
A fórmula ON (ענ), composta pelas letras hebraicas Ayin e Nun, é o Nome Solar da Criação e da Cidade Sagrada do Egito – Heliópolis, também chamada Cidade do Sol. No simbolismo hermético, ON é a emanação direta do Sol Invisível, a centelha de Kether descida à carne pela vibração fálica da Vontade. ON é também a raiz da palavra Ion (em grego), significando eternidade, e do latim onus, peso – o peso do Verbo encarnado. Assim, ON não é apenas um nome, mas uma operação: a descida da luz ao sêmen, a corporificação do Espírito.
Na Clavis Alchimiae, o ON é o Nome da Pedra Filosofal em estado seminal. A gota de ON é o próprio Elixir Rubeus, o licor avermelhado do Sol que, quando fecunda o Graal, gera o Ouro dos Sábios. A obra alquímica nunca foi meramente uma transmutação de metais: é uma liturgia de transmutação do sêmen em luz. O sêmen é o prima materia, o caos orgânico que, ao ser consagrado pela Palavra, se converte em Ouro Filosófico. Assim como a clavis abre a porta do vaso hermético, ON é a vibração que desperta o PHALLUS e o torna cetro da Criação.
No tantra, esse mistério é conhecido como o segredo do bindu, a gota luminosa que reside no sahasrāra-cakra, mas que desce pelo canal central (suṣumnā) para fecundar a base da existência. O bindu é a forma condensada da consciência – a essência de Śiva – e quando vertido com total consciência, torna-se veículo da manifestação divina. Na tradição tântrica, diz-se que o yogī que consagra sua gota se torna Bhāirava, o terrível e glorioso Senhor do Tempo.
A união entre ON e bindu é total: ambos são a semente solar que desce do Alto para tocar o ventre do mundo. Ambos são gota e verbo, sêmen e verbo, luz e encarnação. Na linguagem thelêmica, ON é o núcleo vibracional da fórmula Abrahadabra, e está presente como fogo secreto em cada letra. Crowley escreve: ON é a fórmula da Lança: a gota que consagra o ventre da Deusa com a Palavra.[19] Ele reconhece que o PHALLUS, quando ereto e ungido pela consciência, torna-se o canal da Palavra Perdida. ON é, pois, o nome oculto da Lança de Parzival.
É por isso que, na magia sexual thelêmica, o PHALLUS é o fogo secreto e a chave de toda magia verdadeira. ON é essa chave: a vibração sonora do sêmen tornado luz. O que o IX° ensina é que o sêmen, quando vertido com Vontade, com Vísio e com Amor, é Palavra Viva – e, sendo Palavra, é Logos e, sendo Logos, é Criador. Ao vibrar ON no momento da consumação mágica, o sacerdote não apenas ejacula – ele Verbaliza. A gota que emerge de seu corpo é o Verbo feito carne. E se ele a entrega ao Graal da Sacerdotisa com reverência e pureza, aquela gota se torna Espírito encarnado: a Criança Estelar.
Por isso que a Palavra do Mago é feita carne no Phallus, e o Verbo se torna Vontade Criadora, quando o Sacerdote, como um Leão, sacrifica sua semente na Águia de Prata da Alma. ON é o momento em que o PHALLUS fala. E essa fala não é uma linguagem humana – é uma vibração solar, uma assinatura mágica do Espírito. Em termos alquímicos, é o momento em que o enxofre vermelho se une à mercúrio branco, dando origem à criança-hermafrodita da Opus Magnum.
No tantra, diz-se que o yogī deve aprender a verter sua semente com a mente no alto, i.e. deve tornar-se o mestre do bindu, o senhor do sêmen. No IX°, esta prática é ritualizada como o sacramento da Eucaristia Solar. A gota não é desperdiçada: é consagrada. Ela é colhida, perfumada, invocada com nome secreto, e colocada sobre o altar como alimento dos deuses. Como está escrito em Liber AL vel Legis (III:25-26): Isto queimai: disto fazei bolos & comei para me. Isto tem também um outro uso; seja depositado diante de mim, e conservado impregnado com perfumes de vossa prece: encher-se-á de escaravelhos como se fosse e coisas rastejantes sagradas a mim. Estes matai, nomeando vossos inimigos; & eles cairão diante de vós.
Assim, ON não é apenas o nome de uma cidade egípcia ou de um deus solar. É a fórmula suprema da sexualidade sagrada, a palavra que consagra o sêmen como Verbo, que torna a ejaculação um sacramento, e a carne em templo de luz. O PHALLUS que vibra ON é o cetro do mago-rei, e aquele que o empunha com consciência é sacerdote da Luz e Senhor da Criação. Pois nele não habita mais o instinto, mas o Logos. E por isso, diz-se que o PHALLUS do Iniciado é a Lança do Sol, o raio de ON feito carne.
E assim se fecha o limiar deste primeiro capítulo – mas apenas para que se abra, dentro de ti, o verdadeiro portal da Obra. Pois se até aqui o texto iluminou as fundações teóricas e operativas do Mistério, é agora, à beira da Lança em chamas, que o leitor deve decidir se ousará empunhá-la. Não se trata de alegoria, nem de rito externo, mas de uma decisão interna e irrevogável: transmutar o próprio corpo em Templo, o sêmen em Palavra, o PHALLUS em Verbo Criador. Aquele que compreende que a carne pode ser tornada luz, que o desejo pode ser elevado a direção, e que a potência sexual não é um fardo profano, mas o cetro de um Rei-Sacerdote, esse encontra-se à soleira do IX° Grau, onde a carne se transubstancia e a vontade gera estrelas.
Tudo o que foi revelado aqui aponta para uma única Verdade: que o PHALLUS consagrado é a Lança de Deus, o canal onde o Verbo vibra e a Luz é semeada no ventre da Manifestação. Abrahadabra é o nome dessa obra – e ON, o sopro que a anima. Em tua mão, a Lança será mero falo, se tua alma não arder com a consciência solar da Vontade. Mas se tua alma for um altar, e tua ereção for um sacramento, então tua emissão será verbo, tua carne será templo, e tua Vontade criará mundos. Este é o caminho do Filho do Sol. Este é o Juramento do IX° Grau. Que aquele que compreendeu, caminhe. E que ao vibrar ON sobre o altar de Babalon, faça-se a Luz.
Amor é a lei, amor sob vontade.

Este texto é um excerto de A Lança & o Graal, em breve disponível.
NOTAS:
[1] Veja Frater Achad. O Cálice do Êxtase. Introdução e notas por Fernando Liguori. Clube de Autores, 2017.
[2] Aleister Crowley. Liber AL vel Legis, I: 51. Veja também A Visão & a Voz, 5° Aethyr. Em The Equinox: Livros Selecionados. Tomo I. Daemon Editora, 2021.
[3] Veja Aleister Crowley. Liber Aleph, Cap. 86 De Formula Tota. Clube de Autores, sem data, pp. 85.
[4] Em linha: Crowley-Germer-Motta-Lacerda-Araújo-Liguori.
[5] Tarcísio Oliveira Araújo, conhecido como Frater BenHoor IX° O.C.T e Frater S.S. 2°=9 A∴A∴, foi um destacado ocultista brasileiro, discípulo direto de Euclydes Lacerda de Almeida (1936-2010). Juntos, fundaram a Ordem dos Cavaleiros de Thelema, O.C.T. Tarcísio também cofundou e presidiu a Sociedade Novo Æon, S.N.Æ. Sob sua liderança, a O.C.T. promoveu os preceitos de Liber Oz, formando grupos e instruindo buscadores no Brasil e no exterior até seu falecimento em 2003. Sua morte levou a uma pausa nas atividades da O.C.T. e da S.N.Æ.
Euclydes Lacerda de Almeida nasceu em 18 de junho de 1936, no Rio de Janeiro, Brasil. Sua mãe faleceu poucos dias após seu nascimento, e seu pai, sem condições de criá-lo, entregou-o a um casal abastado que o adotou. Aos 11 anos, teve uma experiência marcante com sua babá, que influenciou sua jornada espiritual. Educado em escolas militares, interessou-se por espiritismo e teosofismo. Em 1962, conheceu Marcelo Ramos Motta (1931-1987), tornando-se seu discípulo e colaborador na divulgação de Thelema no Brasil. Fundou a Sociedade Novo Æon e a Ordem dos Cavaleiros de Thelema, contribuindo significativamente para o Ocultismo brasileiro. Euclydes faleceu em 24 de junho de 2010, deixando um legado duradouro na comunidade thelêmica.
[6] Samael Aun Weor, nascido Víctor Manuel Gómez Rodríguez, veio ao mundo em 6 de março de 1917, em Bogotá, Colômbia, e faleceu em 24 de dezembro de 1977, na Cidade do México, México. Foi um escritor, ocultista e fundador do Movimento Gnóstico Cristão Universal, sendo amplamente reconhecido por suas obras sobre esoterismo, alquimia e magia sexual ocidentais.
[7] Quando conheci Frater S.S. em 1996, havia acabado de terminar um curso de missionários gnósticos no Instituto Stella Maris/Monastério Mória em Mato Grosso do Sul, local onde fui ordenado Sacerdote da Igreja Gnóstica na mesma ocasião. Tomei este momento como Norte Espiritual de minha caminhada, uma vez que recebi batismo, ao nascer, na Igreja Gnóstica da Fraternitas Rosicruciana Antiqua, a F.R.A., fundada por Krumm-Heller (1876-1949). A Igreja Gnóstica do Movimento Gnóstico de Weor foi uma continuação da Igreja Gnóstica da F.R.A.
Arnoldo Krumm-Heller nasceu em 15 de abril de 1876, em Salchendorf, Alemanha, e faleceu em 19 de maio de 1949, no México. Médico, ocultista e escritor, tornou-se uma das figuras mais influentes do esoterismo latino-americano no início do Séc. XX, estabelecendo diversas ordens e sociedades esotéricas, incluindo a Fraternitas Rosicruciana Antiqua, que sintetizava elementos do rosacrucianismo, martinismo e da gnōsis. Além de seu trabalho na medicina homeopática e suas explorações místicas, Krumm-Heller foi um prolífico autor sobre temas espirituais e alquímicos, deixando uma marca duradoura no cenário ocultista.
Krumm-Heller foi iniciado na Ordo Templi Orientis por Theodor Reuss, tornando-se o representante da ordem na América Latina. Sua ligação com a O.T.O. o levou a explorar as doutrinas da magia sexual e os mistérios tântricos ocidentais que Reuss e outros estavam promovendo. Como emissário da O.T.O. em países de língua espanhola e portuguesa, Krumm-Heller ajudou a expandir o alcance da ordem, adaptando seus ensinamentos a uma tradição mais cristianizada e rosacruciana, o que gerou algumas divergências com a abordagem adotada na Europa. Apesar de sua relação inicial próxima com Reuss, ele manteve uma visão própria sobre os princípios da ordem, enfatizando mais fortemente o hermeticismo cristão.
Mais tarde, Krumm-Heller estabeleceu contato com Aleister Crowley, especialmente após a morte de Reuss, quando Crowley reivindicou a liderança da O.T.O. Embora tivesse grande respeito por Crowley e seus ensinamentos, Krumm-Heller manteve uma posição independente, preferindo seguir sua própria linha de esoterismo e não adotando completamente a doutrina thelêmica. Suas obras e suas ordens continuaram a ter uma forte influência na América Latina, especialmente no Brasil, México e Argentina, onde sua interpretação do Ocultismo misturava elementos do cristianismo esotérico, gnōsis e magia cerimonial.
[8] Os siddhis, frequentemente traduzidos como poderes ocultos ou faculdades paranormais, são habilidades extraordinárias desenvolvidas por meio da disciplina espiritual, especialmente no contexto do tantra e do yoga. Nos textos hindus, como o Yogaūtra de Patañjali, os siddhis são descritos como resultados naturais da meditação profunda (dhyāna), da concentração extrema (dhāraṇā) e da integração (samādhi). Entre essas capacidades estão a clarividência, a levitação, a materialização, o conhecimento do passado e do futuro e até mesmo a imortalidade. No entanto, a tradição vêdica alerta que esses poderes podem ser armadilhas no caminho espiritual, desviando o praticante da verdadeira libertação (mokṣa).
Com a disseminação dos ensinamentos tântricos no Ocidente, a busca pelos siddhis foi reinterpretada dentro do esoterismo ocidental, especialmente no Ocultismo do Séc. XIX e XX. Autores como Helena Blavatsky (1831-1891), Aleister Crowley e Eliphas Lévi relacionaram essas faculdades com as práticas da magia cerimonial, alquimia e desenvolvimento psíquico. No contexto thelêmico e na magia sexual da O.T.O., os siddhis são vistos não apenas como fenômenos místicos, mas como manifestações da Vontade direcionada, onde o domínio da energia vital e do PHALLUS permite o acesso a estados de consciência superiores e a realização da Grande Obra.
[9] Aleister Crowley. The Equinox: Livros Selecionados. Tomo III. Daemon Editora, 2021.
[10] Aleister Crowley. An Introduction to the High Art. The Revival of Magick. Level Press, 1974, pp. 43.
[11] Veja Julius Evola. The Metaphysics of Sex. Inner Traditions, 1991. Revolt Against the Modern World. Inner Traditions, 1995.
[12] Sob instrução pessoal no templo da O.C.T. em Juiz de Fora em março de 1999, Frater S.S. me explicou este arcano. Ele pontuou:
A Palavra do Mago é feita carne no Phallus – ecoa o princípio de Verbo encarnado, muito presente no simbolismo cristão (o Verbo se fez carne) e reinterpretado por Crowley como o PHALLUS enquanto Logos ativo. Essa converge no Liber Aleph e no Magia em Teoria & Prática, onde o PHALLUS é tratado como a Vara da Lei.
Quando o Sacerdote, como um Leão, sacrifica sua semente – é uma referência direta ao Atu XI do Tarot de Thoth, Luxúria, onde Babalon cavalga a Besta 666, símbolo do Mago como Leão solar, doador da semente. Esse sacrifício é também descrito em Liber XV: Missa Gnóstica e nos documentos internos do IX° O.T.O.
Na Águia de Prata da Alma – a Águia é símbolo alquímico e hermeticista da sublimação da matéria. A Águia de Prata simboliza augoeides, o Ovo de Luz da alma, ou o cheth ha neshamah, o receptáculo espiritual da alma iluminada.
A pedido de Frater S.S., posteriormente desenvolvi este conhecimento no meu diário mágico, que ele iria avaliar em seguida. Segue a passagem na íntegra, entrada de 22 de março de 1999:
No arcano do IX°, o Phallus não é apenas o órgão sexual masculino, mas o próprio Verbo encarnado – o Logos solar condensado na carne, a manifestação física da Vontade Criadora. Ele é, no sentido mais elevado da teurgia sexual, a baqueta operativa do mago, cujo toque é fecundação do real. Na linguagem hermética, o Phallus é o cetro solar do Rei: portador da Palavra, do Fogo e da Luz – uma Lança consagrada cujo poder só se atualiza quando unido, de maneira sacramental, à Águia de Prata da Alma, isto é, ao receptáculo glorificado da Vontade, a Matéria Sagrada da Sacerdotisa.
Quando se diz que a Palavra do Mago é feita carne no Phallus, afirma-se o princípio gnóstico de que o Logos é gerador – e que sua mais elevada expressão mágica não está nas palavras pronunciadas, mas no sêmen consagrado, portador de intenção, carregado de Vontade. Tal sêmen, no contexto do IX°, não é mera emissão biológica, mas Elixir operante, tingido de Signatura Mystica, carregado de destino mágico. Por isso, o Verbo se torna Vontade Criadora quando esta emissão é ritual, dirigida, sacralizada
Neste ato, o Sacerdote, operando como Leão – símbolo solar, do poder consciente, da realeza mágica – consagra sua própria potência ao Espírito. Mas tal consagração não é vazia: ela se cumpre na Águia de Prata da Alma, a Matéria preparada, a Sacerdotisa Iniciada, que representa tanto o Graal físico quanto o receptáculo etéreo, astral e espiritual da Obra. A Águia de Prata – símbolo alquímico da sublimação da matéria – é a contraparte feminina que alça o sêmen à condição de substância glorificada. Não há hierogamia sem essa união; não há transmutação sem esse receptáculo. Quando a Lança toca o Cálice – quando o PHALLUS consagrado penetra a Matéria Gloriosa – dá-se a operação do IX° e, nela, cumpre-se a verdadeira Consagração do Mundo.
Essa fórmula é, assim, a síntese alquímica de Solve et Coagula: o sêmen solar (Solve) é entregue, e a união sagrada (Coagula) ocorre no Templo da Alma. Este é o segredo do Verbo que se torna carne para que, através do sacrifício do Leão, a Águia possa voar. E este voo é o retorno do Logos à sua fonte – não mais como Verbo não dito, mas como Realidade criada: a Criança Mágica.
A partir da leitura desta passagem em meu diário mágico, Frater S.S. disse-me: você é um adepto do IX° Grau. O que se seguiu a esses eventos foi relatado em Gnose Tifoniana, Vol. I.
[13] Aleister Crowley, As Confissões de Aleister Crowley. Editora NTN, 2022, pp. 105.
[14] Clément de Saint-Marcq foi um autor francês ativo no início do Séc. XX, conhecido por seu trabalho A Eucaristia, publicado em 1906. Sua obra explorou aspectos esotéricos e simbólicos da eucaristia, contribuindo para debates acadêmicos e religiosos da época.
[15] Aleister Crowley. Liber Aba: Magia em Quatro Partes. Penumbra, 2020, pp. 378.
[16] Aleister Crowley. Liber AL vel Legis, II:6.
[17] A Clavis Alchimiae ou Chave da Alquimia, é um termo que aparece ao longo da tradição alquímica ocidental como designação simbólica para textos ou ensinamentos que oferecem o acesso ao núcleo operativo da Magnum Opus – a transmutação do ser pela transmutação da substância. Embora não seja um título de obra única, a expressão se torna recorrente a partir do Renascimento hermeticista, notadamente nos círculos influenciados por autores como Heinrich Khunrath (1560–1605), Michael Maier (1568–1622) e o corpus rosacruciano dos Sécs. XVII e XVIII. A chave em questão raramente é literal: trata-se de uma cifra iniciática, transmitida sob véus simbólicos e linguagens codificadas, que indica a correspondência entre a operação laboratorial e a transmutação interior do alquimista. Em muitos manuscritos latinos e germânicos, a Clavis é associada ao mistério do Rebis, da união do enxofre e do mercúrio, e da coagulação do espírito no corpo glorificado. No Séc. XIX, com o renascimento ocultista francês conduzido por figuras como Éliphas Lévi (1810–1875) e depois por Stanislas de Guaita (1861–1897), a Clavis Alchimiae reaparece como símbolo da síntese entre alquimia espiritual e magia sexual, lançando raízes no que viria a ser mais tarde integrado às formulações hermeticistas da O.T.O. e da cultura thelêmica. Nesse contexto, a chave da alquimia não abre apenas o vaso hermético – ela abre o templo interior onde o Fogo Secreto consome a matéria e revela o ouro do espírito.
[18] Arthur Avalon. Kulāṇarva-tantra. Motilal Banarsidass Publishers, 2000, pp. 192. Tradução própria.
[19] Aleister Crowley. Liber Aba: Magia em Quatro Partes. Penumbra, 2020, pp. 307.
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